Prefeitura quer impor horário para carga no Anel Rodoviário de BH


A decenária novela do Anel Rodoviário (ARBH) continua. Novos e emperrados capítulos surgem com jeito de comida requentada

Luciano Alves Pereira

 Mesmo não sendo a instituição correta para a iniciativa, a prefeitura da capital (PMBH) ameaçou intervir. Agora cumpre a promessa. A inspiração pode ter sido importada de São Paulo, com suas problemáticas Marginais, cheias de restrições, especialmente para caminhões.  Cabe, no entanto, destacar uma diferença crucial: as vias paulistanas são municipais e em BH, o Anel corre sob jurisdição do DNIT federal. Sem se atentar para minúcia, o prefeito de BH juntou outros órgãos afetos para discutir medidas de controle do trecho mortífero.

O primeiro encontro ocorreu na segunda quinzena de novembro, reunindo representantes da PMBH (BHTrans), da concessionária da BR-040 (Via 040) – que avisou estar  desistindo do contrato com o governo federal –, da Polícia Rodoviária Federal (PRF), da Polícia Militar Rodoviária (PMRv), da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e da Guarda Municipal. Há pouco a escolher e a PMBH propõe no primeiro momento medida restritiva à descida de caminhões entre 17h e 20h, hora de pico do trânsito e de mais ocorrências.

O trecho sujeito a bloqueio começa no alto da serra do Curral, entre o Olhos d’Água (km536) e a avenida Amazonas (km 544). A proposta visa aliviar o clássico conflito entre o intenso fluxo local e o rodoviário, também chamado de longa distância.

O projeto foi batizado de Aliança para a Vida e ao seu primeiro encontro não estavam presentes os representantes que mais tinham a ver com a discussão: os transportadores e os caminhonistas. Já se sabia que a sugestão oficial os afetará por inteiro, pois peca pela ingerência no jeito do TRC trabalhar na região, além de acarretar prejuízos em cadeia. Por desconhecimento da rotina de quem vive na estrada, dois apresentadores de noticiários de TVs locais (Carlos Vianna e Mauro Tramonte) aplaudiram o trancamento. Suas palavras encheram de alegria o coração atleticano do prefeito, que é candidato ao governo do Estado, embora insista em se declarar apolítico.

Na trincheira oposta, o especialista em trânsito, José Aparecido Ribeiro, atacou. Ele é integrante da Comissão Técnica de Transportes da Sociedade Mineira de Engenheiros e acredita que o prefeito foi oportunista, visando os dividendos institucionais de sua iniciativa espetaculosa. Ribeiro firma que o ARBH é território federal e como tal, “não há encaminhamento que prospere sem o concurso de Brasília”. Quanto à restrição de caminhões naqueles oito quilômetros mais sujeitos a sinistros, pressupõe-se a existência de retro-áreas apropriadas para estacionamento de caminhões e carretas de todo tipo. Contudo, se as houver, são minguadas vagas em postos de abastecimento nos municípios vizinhos de Nova Lima e Itabirito.

Ao embrulhoso caso não faltou a opinião da PMRv, através do tenente Pedro Henrique Barreiros, encarregado do policiamento da ARBH. “Sabemos que restrição não é solução para o Anel porque há problema estrutural. Mas ela pode reduzir os acidentes”, afirmou. Ou seja, está de acordo. O sindicato das transportadoras de Minas (Setcemg/BH) estimou que 19 mil veículos de carga passem diariamente pelo ARBH (não necessariamente no trecho visado para a interrupção do tráfego pesado). Segundo o consultor técnico da entidade, Luciano Medrado, “por alto haveria um impacto de 29% de aumento do custo logístico”. Já no entender do líder classista Ulisses Martins, diretor da Empresa de Transportes Martins, de BH, “o efeito danoso para o consumidor chegaria a 18%”.

Martins também adianta sua proposta para remediar o problema, a qual não inclui  restrição ao transito de caminhões. Ele acha que deve haver “maior policiamento e mais radares”. O próprio tenente Barreiros já se manifestara a respeito, em abril passado, quando mais um desenfreado esmagou 19 veículos, deixando um morto e seis feridos. Ele sabe que ao trecho não faltam dispositivos de controle da velocidade e sinalização, o que não estanca o ímpeto dos motoristas irresponsáveis. Ele reclamou às TVs locais que “ninguém liga para radares, quanto mais para placas”.

CONTRA-CULTURA

A crônica desobediência  teria um quê de confronto à cultura da baixa velocidade, prática que soma força para o trânsito seguro. Na visão de estradistas (não todos), carreta andando a 80 km/h, “está se arrastando” ou é “a lesma da estrada”, como são apelidados os bitréns/9 do Expresso Figueiredo/BH (ver redes sociais). Mal sabem os seus críticos que a empresa investe altas somas na seleção, treinamento e planejamento de pontos de descanso de motoristas. Pelo empenho, atinge baixíssimos índices de acidentes, para aplauso e alta avaliação do embarcador, seu cliente. Ao mesmo tempo, alcança bons números no rendimento tonelada.km/litro, obtidos na conta de combustível.

O projeto municipal Aliança para a Vida logo divulgou sua agenda. Haverá pente-fino nos veículo de carga que trafegam pela ARBH. Seriam inspeções antes de os veículos entrarem no segmento crítico. Deverão ser checadas as condições de freios, motor, suspensão, direção e pneus. O procedimento não tem como ser rápido. O início está marcado para 11 de dezembro e os locais não foram divulgados. Ficará por conta da PMRv, com apoio da concessionária Via 040. Por enquanto não se fala em retenção de veículos até o pós-20h. Mas sua demarragem depende de rito legal, só depois de pertinente audiência pública, cuja convocação requer prazo de 90 dias. Na data ocorrerá definição de quais caminhões e carretas hão de esperar passar a ‘janela ‘ de interdição.

O desate do nó do ARBH não se dará por gestos de voluntarismo. E a engenharia adverte através de números. Na reunião da Câmara de Vereadores de BH, em 1ᵒ de dezembro, o assessor do Setcemg destacou a vala intransponível no curto e médio prazos para uma requalificação: a sua declividade. Traduzindo os dizeres de Medrado, há um aleijão na geometria do trecho, materializado pelo excesso de inclinação de suas rampas (13%). Os manuais de boa técnica de projetos rodoviários condenam rampas além de 4% para vias troncais (160 mil veículos/dia), como é o caso da ARBH. Esta caríssima especificação é seguida, por exemplo, nas interestaduais americanas. Levando em conta a imponência da serra do Curral, fica difícil imaginar quanto custaria a correção daquela deformação congênita. Mais indicado seria construir outra via à parte.

Source: Carga Pesada

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